quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sobre o Documentário: "Lygia, uma escritora Brasileira"






Realizado pela TV Cultura, o documentário Lygia, uma escritora Brasileira é uma bela voz que ecoa para celebrar uma das mais autênticas literárias do país. Com direção de Helio Goldsztejn  e roteiro de Eneas  Carlos Pereira,  o longa recentemente lançado nos cinemas Brasileiros contribui muito para jogar luz à trajetória de Lygia, uma mulher à frente do seu tempo, que construiu uma literatura pós modernista com forte presença de temas universais e do feminino, com destaque para "As meninas", romance  ambientado na época da ditadura militar e em 1995 adaptado para o cinema sob a direção de Emiliano Ribeiro. 






O documentário não traz uma proposta peculiar de narrativa e preservar um formato tradicional foi o melhor caminho na realização. Ele mantêm suas origens com influência dos recortes televisivos e faz  o espectador mergulhar na intimidade da escritora como se ela fosse uma amiga próxima. O diretor e equipe da TV Cultura buscou nos arquivos  do audiovisual algumas entrevistas como a do Roda Viva e relatos de diferentes ciclos de Lygia como a dedicação às letras, o casamento com o jurista Goffredo da Silva Telles, a perda precoce do filho cineasta (Goffredo Telles Neto), o feliz casamento com o grande crítico de Cinema Paulo Emílio Sales Gomes, além da presença da nova geração da família com a participação de suas netas Lucia Telles e Margarida Zanelato. 





Com o crítico de cinema Paulo Emílio: parceria, companheirismo e paixão



Para aproximar a história de Lygia às opiniões de escritoras e da crítica literária, o diretor inclui entrevistas com personalidades como Tati Bernardi, Jô Soares, Manuel da Costa Pinto, Marcelino Freire, entre outros, sendo que, os dois últimos conseguem dar um peso histórico, argumentativo e crítico sobre a importância da literatura da escritora. Outra boa escolha foi a participação de Isabella Lubrano, jornalista e blogueira especializada em literatura, que demonstra grande afeto e respeito pelo trabalho da escritora e é bem esclarecida sobre a obra. Sob o ponto de vista da influência de Lygia nas juventudes, os relatos de Lubrano trazem um frescor de que gente comum e jovem, conectada digitalmente, também aprecia literatura e a defende como parte de um cotidiano que não deve ser esquecida. 



Por outro lado, a presença de Glamour Garcia não agregou tanto valor pois ela não conseguiu demonstrar muito repertório para falar de Lygia e estas cenas ficaram superficiais, infelizmente dando a impressão de que o diretor colocou uma transexual  no longa apenas para dizer que colocou, seguindo um "politicamente correto" na agenda de diversidade de gênero. De maneira geral, algumas entrevistas são desnecessárias nos documentários e pouco estão em sintonia com o resto do longa, o que colabora para observar a diferença entre um bom documentário e um excepcional.















Com Monteiro Lobato, Antônio Cândido e Jorge Amado: uma gigante entre gigantes




Paulistana e com 94 anos, Lygia Fagundes Telles é uma imagem viva da inspiração e força feminina na Literatura. Nasceu para ser uma imortal das Letras em um meio  que teve maioria masculina. Uma fina rebelde com uma sofisticação apurada, um equilíbrio sensato e uma sabedoria vivaz nas palavras.  Foi amiga de grandes nomes como Mario de Andrade e Oswald de Andrade, vanguardistas da modernidade literária, assim como de suas contemporâneas como Clarice Lispector e Hilda Hilst com seus estilos completamente diferentes . Seu documentário mostra o quão admirável ela é em vários sentidos, partindo de uma clara evidência de que ela escolheu os seus próprios caminhos, com os pés no chão, sabendo que viver de Literatura não seria plenamente possível e que o Brasil é um país difícil de viver. Mas, ainda assim, ela marcou sua presença na escrita com um estilo bastante autoral, realista e provocativo ao inserir temas como a morte, o amor, o sexo, o adultério, a repressão, o egoísmo, a loucura. 











Membro da Academia Brasileira de Letras, 
Lygia se destacou como uma das grandes mulheres da Literatura.
 Indicada ao Nobel de Literatura em 2016

Com  Hilda Hist e José Saramago: 




Alguns dizem que ela é pessimista e de palavras pesadas, entretanto, sua biografia é muito mais luminosa e diz sobre uma condição não paralisante diante do mundo. Aliás, este é o papel do escritor: ser ativo no mundo, explorá-lo, agir e reagir com suas palavras. Lygia  ilumina coisas que estão debaixo da superfície e que nem todo o escritor consegue explorar, nem todos gostam de revelar, assim, ela pede ao leitor uma participação mais ativa no ato da leitura e de observar a nós mesmos. Esmiuçar a condição humana é virar o ser humano do avesso, por isso, com louvor, ela é conhecida como escritora do avesso. 






Uma verdadeira dama da Literatura Brasileira.




A grande lição de vida que permanece ao ver "Lygia, uma escritora Brasileira" é a sua escolha pela Literatura, sua belíssima e inspiradora vocação. Sua trajetória é marcada pela generosidade, delicadeza e  beleza de quem encontrou nas palavras refúgio e libertação. É interessante notar que, desde a faculdade de Direito da USP, Lygia buscou uma militância cuja experiência a ajudaria a amadurecer e a escrever os livros da década de 70 como "Antes do baile verde" e "Seminário dos ratos", revelando subtemas sociais como a moral das famílias urbanas, o papel dos militares e a ditadura, a analogia do fantástico com a política e os ratos. É uma escritora de contextos, em sintonia com o seu tempo que nunca desistiu de falar sobre o país e centralizar a humanidade.



Ela também demonstrou atitudes no decorrer da sua carreira que refletem seu incômodo com as injustiças sociais e seu enfrentamento, mas também sua força de viver experiências diferentes em sinergia com as Letras e as Artes como os trabalhos  cinematográficos que realizou com o seu filho cineasta Goffredo Telles Neto no qual participou do  Narrarte, além da adaptação de Capitu (1968) realizada com seu esposo Paulo Emilio, desta forma, Lygia se aproximou do mundo do Cinema, da escrita de roteiro e interpretação.


Agora ela ganha a tela como musa para inspirar e emocionar. Imperdível bela Lygia!

sábado, 26 de janeiro de 2013

Suspensas Fugas, Cecília Meireles


 
"PARA PENSAR EM TI todas as horas fogem:
o tempo humano expira em lágrima e cegueira.
tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito - ai meu domínio triste!

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens,
- e na minha memória és mortalidade - vejo as datas, escuto o próprio coração.

E depois silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer.

Da vida à vida, suspensas fugas".

In: 'Solombra", 1963.

 





"Cecília, Cecília.
Ela sabe das coisas do Amor e de sua ausência  
De tanto amar e, na dor que vem da memória, 
que insiste no coração tocar
o escape é a rota para não no Amor pensar,  
Ele nunca é esquecido, mesmo quando os olhos se fecham
em um sono que deseja muito mais um afetivo sonho
Ele nunca se ausenta, ainda que haja o desejo
de uma fuga que sempre ficará em suspenso."
(Cristiane Costa) 

sábado, 16 de junho de 2012

Dormir e despertar para sonhar , fragmentos inspirados em Mario Quintana



Eu quero dormir. Será que o sono é uma fuga ou a esperança de encontrar o meu verdadeiro mundo em sonhos?

Não quero acordar. A vida é áspera. No conforto do travesseiro macio, minha alma repousa fascinada com a leveza de sublimes sonhos.
 



Na vida, sou múltipla na intensidade do autêntico ser. Sou pessimista. Sou otimista. Sou triste. Sou feliz. Estou morta. Estou viva.

Vivo a simultaneidade de uma noite de sono com pesadelos e sonhos.

Quero somente despertar para um mundo novo.


(Cristiane Costa)


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Inspirado em meus bocejos com desejos, decepções  e superações e, em Mario Quintana, meu poeta simultâneo.

Poemas de Mario Quintana e arte de Picasso (Esboço de Sleeping woman)


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Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! 
- Você é louco?
- Não, sou poeta. 

O morto
Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!


(Simultaneidade, de Mario Quintana)

domingo, 1 de maio de 2011

Um mundo, uma alma, tanto de Florbela Espanca



"O meu mundo não é como o dos outros,
Quero demais, exijo demais,
Há em mim uma sede de infinito,
Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
Pois estou longe de ser uma pessimista;
Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada.
Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... Sei lá de quê!"

(Florbela Espanca)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cartas a Theo, Arte Pós Impressionista e meu querido Van Gogh


Eu gosto de Van Gogh, do Van Gogh pós-impressionista que inaugura uma nova forma de captar cores, pinceladas, composição e tela, do Van Gogh pré-expressionista que pinta de forma frenética quase visceral, explorando emoções em uma época de impressões, do Van Gogh "suicida da sociedade" que na reclusão e solidão fez sua arte em resposta à sua exclusão. Eu amo Van Gogh, o pintor incompreendido, por N razões incompreendidas. Eu amo suas pinturas simples por captarem a densidade e a expressividade de objetos e pessoas, por ter encontrado na humilde vida e na morte um caminho para a imortalidade, por ter pintado seus auto-retratos retratando dramas tão individuais a cada pincelada.







É irônico perceber que as grandes mudanças da história, neste caso, da Arte moderna vem dos mais incompreendidos: Van Gogh "o suicida", Paul Gauguin "o selvagem"...Todos se exilaram longe de Paris, o centro da Arte. Na fuga e no isolamento, encontraram um ambiente de pesquisa, de fazer arte testando novas sensações e alterando a estrutura de seus trabalhos. E nessa viagem, acompanhei Van Gogh em meus pensamentos fugazes, como se eu estivesse no Sul da França, seu porto seguro em meio à solidão. Neste lugar de introspecção, Van Gogh encontrou algo que amava - uma paisagem do Japão. Dizem que o Sul da França era assim...Ele amava arte japonesa, principalmente as gravuras: a simplicidade nas cores e nas composições. Assim ele queria sua arte, alegre e simples. Densa ela também se tornou, assim como densos ficaram seus pensamentos. Pensamentos que convergiam em pinceladas em sintonia com suas emoções. Era triste, era feliz, ansiava por vida e por morte. Pensamentos contraditórios, instáveis produzindo traços fortes em pinturas turbulentas. Assim foram seus últimos auto-retratos.


As naturezas mortas vibravam com a luz do sol atravessando como labaredas de fogo sobre a matéria e seu corpo, como matéria, queria estar morto a ponto de Van Gogh se auto-punir. Autoflagelação eis o que lhe ocorreu intempestivamente. Cortou um pedaço da própria orelha, queria ver se a dor física era maior que a dor do espírito. Entre dores em crises, a maior foi em um domingo, ao passear pelos trigais, lá ele se silenciou para sempre.





Os ciprestres, 1889 . Um dos meus preferidos.

Pertence a fase febril e conturbada.
pinceladas frenéticas que se afastam da realidade objetiva.


Eu gosto do Van Gogh louco. Na sua loucura, foi livre. Na sua liberdade, foi artista. Na sua arte, foi mais livre. Livre para pintar emoções internas e ser precursor de uma arte de expressões..que amo. Em carta ao irmão Théo, o livro dos escritos de Van Gogh, ele comenta: "As emoções, são por vezes, tão fortes que trabalho sem ter consciência de estar trabalhando... e as pinceladas acodem em sequência e coerência idênticas à de palavras numa fala ou carta."

Se uma última pincelada é como uma última palavra, aqui encerro a minha voz interior sobre este meu amado pintor.