domingo, 10 de janeiro de 2010

Traduzir-me...

Traduzir-me
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?

+ Texto de Ferreira Gullar. Os melhores poemas de Ferreira Gullar. Global, São Paulo, 1985.




Ferreira Gullar, um dos poetas brasileiros mais conhecidos, disse à uma reportagem da Revista Entre livros há muito tempo atrás: * “Quando a vida me agarra, me força a refletir sobre ela, é então que nasce o poema (…). Defronto-me com um mundo indecifrável e aí começo esse pensar…” Não é só o mundo que é indecifrável. Não há coisa mais indecifrável que o próprio homem. Transitamos em crescentes dicotomias : o imaginário e a realidade, o espírito e o corpo, o bem e o mal, o passado e o presente, os sonhos infinitos e a vida limitada, etc. Nestes opostos, a vida de um homem é a busca de si e o entendimento do mundo. A busca de algo que,de fato, nunca se encontrará, pois o homem precisa se autodesafiar, precisa se debater entre seus seus extremos e também seus meios, vivenciar suas descobertas e, para não “morrer”, percorrer uma vida de “encontros” de seus “desencontros”.

Em alguns pontos, estas palavras me lembram o livro de Herman Hesse, Demian. A representação deste livro é de um homem que se choca com o seu “eu presente, temente e tradicional” , contempla a si mesmo e busca no seu interior uma visão multilatitudinal do mundo. Ele se encontra com seus medos, ele se “traduz” através de novas vivências que se chocam com valores familiares e sociais. Ele vive dois mundos : o social, o individual; o bem e o mal; o delírio e o racional.




Em uma de minhas frases preferidas, a mensagem da obra diz : “Quem quiser nascer tem que destruir um mundo, ser é ousar ser” – aqui no sentido de que, em cada novo nascimento de nós, destruímos, retalhamos, consertamos ou o que seja necessário para um novo mundo. Cada tentativa de “traduzir-nos” , há uma ação de ou romper com o passado ou mesmo ajustá-lo em uma realidade presente, destruindo nossos velhos mundos sejam eles reais ou imaginários. No correr deste processo, a gente brinca de “traduzir-se” e “traduzir” o mundo.

Eu costumo “traduzir-me” muito e embora seja um processo doloroso e encorajador, que muitas vezes demanda tempo, suor, lágrimas, risos, ilusões e desilusões, alegrias e tristezas; acho que sem isso eu não seria nada. Como diz Ferreira Gullar, na poesia acima que lhes deixo: “é uma questão de vida ou morte? – será arte?”. De fato é uma arte. A arte da sobrevivência. A arte de viver. Temos que conciliar nossos extremos, tentar “traduzi-los” em conjunto e isso é o que sou. A poesia de Gullar traduz muito sobre mim e com certeza muito sobre outras pessoas…

Estou aqui para traduzir meus momentos literários e deixá-los traduzir-me, espontaneamente escrevendo algumas linhas em um caderno de notas virtual com as minhas antigas e novas glamourosas experiências literárias como leitora.

Seja bem-vindo(a) ao Glamour Literário, a Literatura em minha vida em sua mais encantadora manifestação.

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