domingo, 25 de julho de 2010

Análise Crítica: Poética, de Manuel Bandeira (Parte2)



Na primeira parte da análise de Poética,
a negação tem o objetivo também de criar novas possibilidades e estimular a ruptura com os valores passados. Ao mesmo tempo em que Bandeira nega os valores através da repulsa, ele defende uma nova ordem e estabelece uma nova proposta nesta segunda parte : uma proposta de conscientização do fazer poético autêntico e o desejo de Bandeira por um lirismo libertador .


O lirismo libertador defendido por Bandeira está dividido no campo poético em duas imagens :



- Lingüística : “Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis...”


- Comportamental :
... o lirismo dos loucos O lirismo dos bêbados O lirismo difícil e pungente dos bêbados O lirismo dos clowns de Shakespeare “
Manuel Bandeira defende a lírica livre de formalidades ao reforçar que todas as palavras, construções e ritmos, em especial os barbarismos universais, sintaxes de exceção e os inumeráveis ritmos devem participar da criação poética pois são manifestações lingüísticas naturais, inconscientes e movidas pelo impulso. O recurso utilizado para reforçar o uso destas formas de expressão é dado através da utilização de palavras como “todas” , “todos” “sobretudo”. Manuel Bandeira utiliza também, de forma bastante perspicaz , palavras que retomam a “exceção da exceção” como barbarismos e sintaxes, que são relevantes na criação poética porque são manifestações espontâneas do fazer poético, inclusive da estética modernista e acaba dimensionando tais recursos adjetivando-os como “universais” e “inumeráveis” .






No campo comportamental, o poeta utiliza de forma bastante inteligente , a defesa de um lirismo de loucos, bêbados e clowns. Mas por que Bandeira utilizou estes tipos humanos para pregar a liberdade artística? Estas personagens simbolizam tipos humanos conhecidos por seus desequilíbrios de sanidade (louco), conduta (bêbado) e seriedade (palhaço), ou seja, se comportam de maneira espontânea, sem censuras e repressão. Podemos dizer que rompem com as regras sociais , de “lirismo” bem comportado, por isso , funcionam como símbolos de liberdade de padrões pré-estabelecidos. Bandeira apela pela necessidade de libertar os conteúdos humanos interiorizados e os freios inibidores impostos pela sociedade, assim como o fazem loucos , bêbados e clowns
.


O último verso sintetiza todo o poema:

“- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”.


Neste último verso, o poeta utiliza a dupla negação para reafirmar o propósito de todos os versos anteriores: o de demonstrar a insatisfação com os valores estéticos tradicionais. O poeta projeta neste verso o seu desabafo, a sua não – aceitação da incompletude da arte poética tradicional, do lirismo que não é libertação. O poeta quer deixar claro que não quer mais nenhum lirismo comedido e bem comportado; negando as formas tradicionais de arte para afirmar a liberdade poética como forma de arte autêntica.



No próximo post, abordarei mais sobre a arte literária de Manuel Bandeira,
apresentando a análise de um dos meus poemas preferidos
Vou-me embora para Pasárgada.
Inté!

2 comentários:

  1. A qual escola literária se refere o poeta ao dizer que estava farto do lirísmo comportado e do lirísmo comedido?

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