terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Evolução Poética de Manuel Bandeira


“Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria...”

(Manuel Bandeira)







O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.




Muitos são os críticos que escrevem sobre Manuel Bandeira. Escreve sobre sua capacidade de transformar o tema mais banal em poema com forte carga emotiva, sobre sua humildade, seu convívio com a presença da morte e da doença, seu talento em transformar o prosaico em sublime, o espiritual em dissoluto. Prefiro não me apegar a nenhum destes críticos em específico. Todos contribuíram para despertar em mim as percepções da arte poética de Manuel Bandeira e fazer com que eu percebesse a evolução poética de Manuel Bandeira.



O que abordarei diz respeito à maturidade alcançada por Manuel Bandeira em toda sua obra. Acompanhando a evolução poética de Manuel Bandeira, percebo como sua obra foi sofrendo a incorporação das características do movimento modernista. O poeta que proveio das vertentes do parnasianismo e simbolismo, absorveu a estética modernista em sua obra, reagindo aos formalismos das estéticas anteriores.
Nos livros A cinza das horas, Carnaval e Ritmo Dissoluto, o poeta ainda se submete às formas clássicas de composição poética; no livro Libertinagem, Bandeira atinge a libertação da forma e em Estrela da Manhã e Lira dos Cinqüenta anos, a plenitude artística. Há alguns poemas que chamaram minha atenção por deixarem transparecer vínculos com movimentos anteriores e são também estimados em minha experiência literária.


Na primeira fase de Manuel Bandeira, ocorre a utilização da rima e métrica convencionais e um lirismo melancólico, como em Desalento:


“Eu faço versos como quem chora A

De desalento... de desencanto B

Fecha o meu livro, se por agora A
Não tens motivo nenhum de pranto. B

Meu verso é sangue. Volúpia ardente... C

Tristeza esparsa... remorso vão... D

Dói-me nas veias. Amargo e quente,. C

Cai, gota a gota, do coração. D
E nestes versos de angústia rouca E

Assim dos lábios a vida corre, F

Deixando um acre sabor na boca. E

- Eu faço versos como quem morre. F

(Cinza das horas)


Em alumbramento, o poema é ambientado em uma atmosfera de sonho assim como apresenta uma regularização na forma, nos fazendo lembrar de poetas como Olavo Bilac e Cruz e Sousa neste pequeno trecho. No entanto, a importância deste poema para a obra poética de Bandeira é a tentativa de explicar o inexplicável, desvendar um mistério dado pelas reticências e a repetição. Carnaval prepara o terreno para o livro posterior de Bandeira: Ritmo dissoluto; o poeta tenta solucionar o problema da forma e antecede no poema Alumbramento a temática de um tipo de poesia que será uma das mais expressivas de Bandeira: a erótica (“... Eu via-a nua... toda nua!)”.

“ Eu vi a estrela do pastor...

Vi a licorne alvinitente!...

Vi... vi o rastro do Senhor! ...

E vi a Via Láctea...
Vi Comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...”





Em Libertinagem, além de poemas paradigmas da estética modernista como os que analisei em posts anteriores: Poética e Vou-me embora pra Pasárgada; ainda encontramos poemas como Não sei dançar que possuem certa carga de amargura, mas se no plano temático ainda encontra-se certo tom melancólico, no plano técnico o poeta se distancia do convencionalismo da forma, compondo em versos livres.



“Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff"








Após Libertinagem, Manuel Bandeira desenvolve tanto a temática de seus poemas como a prática poética, alcançando maior plenitude artística. O poeta busca novas formas de fazer poético; como poesia social e erótica; em poemas como “boi-morto” e “a arte de amar”. Estes tipos de poesia apresentam uma elaboração mais conceitual, de renovação da linguagem, de temas pertinentes à sociedade e/ou a condição humana. Elementos como matéria e espírito, amor como ato físico e amor como experiência espiritual constituem o poema “A arte de amar”, no qual o poeta tematiza a relação amorosa.



Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação
Não noutra alma
Só em Deus – ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se como outro corpo.


Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


(Belo Belo)





“O lirismo de Manuel Bandeira não é o produto de experiências de laboratório, mas vem como toda verdadeira poesia, de fontes misteriosas e íntimas, exigindo para realizar-se condições especiais que não se podem forjar arbitrariamente. Apenas é forçoso acentuar a presença de tais preocupações e a importância sensível que assumem em sua obra”. (Sergio Buarque de Holanda em Manuel Bandeira : Verso e Reverso)








Relacionando a obra de Manuel Bandeira ao presente, ou seja em uma perspectiva diacrônica, meu comentário pessoal é que o poeta eternalizou sua obra, trazendo – a para a atualidade. Através da vivência, sensibilidade, percepção e reflexão da condição humana, Bandeira foi capaz de trazer ao leitor elementos atuais e tão presentes no nosso cotidiano como o amor, a infância, o desejo, a família, a morte, etc; por isso, defendo que a poesia de Manuel Bandeira é muito atual. Muitas vezes, o homem não enxerga que a arte é uma constante no dia a dia; mas quando atentamente observamos os elementos intrínsecos da criação artística de um poeta como Manuel Bandeira e como eles são recorrentes no presente; percebemos que vivenciamos estes temas todos os dias: a nostalgia da infância, o erotismo, a amargura; a luta contra a morte e a enfermidade; a busca de liberdades individuais e coletivas, o questionamento de valores morais, sociais e religiosos. O mais impressionante e atual da obra poética de Manuel Bandeira é sua capacidade de recorrência, de atuar de maneira tão real em nosso dia, de tornar banais circunstâncias tão sublimes. Muito mais que a permanência de sua obra, o próprio poeta nos ensina como superou um mau destino, com simplicidade e paixão; mesmo sabendo que a morte e a doença eram suas companheiras. Minha motivação em Bandeira é saber que a vida pode tornar-se mais bela aos olhos quando amadurecemos a tão ponto de enxerga-la com menos hostilidade, apesar das dores pessoais.


Obrigada por prestigiar Manuel Bandeira no Glamour Literário.
Que Bandeira toque a sua alma como tocou a minha. Inté!

7 comentários:

  1. Boa tarde, apreciei enormemente o seu blog. Gostaria de saber se você pode disponibilizar o link dos feeds do seu blog para que eu o acompanhe assiduamente. Meu blog é o www.lituraterre.wordpress.com e seria uma honra receber sua visita e seus comentários. Aprecio muito a interlocução que a blogosfera promove. Inspirado no seu post vou escrever algo sobre bandeira também. Um abraço. Pedro

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  2. Obrigada Pedro, certamente disponibilizarei meus feeds do Glamour Literário. Nem sabia que não estavam disponíveis, rs! Um abraço,

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  3. Você realmente tem o dom da crítica, sou vestibulando e agradeço muito as suas postagens. Mais do que me preparar para as provas, elas me fazem sentir prazer em ler a nossa literatura e apreciar nossos escritores, muito obrigado mesmo, e parabéns...XD.

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  4. Marcos,

    Obrigada pela visita e mensagem carinhosa. Para mim, é um prazer compartilhar este conhecimento com vocês, amantes da literatura e, no seu caso, você como aluno.

    Literatura, amor sem fim, conhecimentos ilimitados sobre nossa própria condição humana, tenho muito a descobrir.

    Abraços e sucesso!

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  5. Amei o blog, nas percebi que não está mais escrevendo..atualizando-o pena...

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  6. Olá Nair,
    Tudo bem? Por conta de uns projetos profissionais intensos, estou sem tempo, mas vou voltar a partir de Agosto com algumas leituras.
    Abs.

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