sábado, 4 de setembro de 2010

O Realismo Fantástico em Cem Anos da Solidão, de Gabriel García Márquez


Um dos maiores valores da Literatura, enquanto produção artística, é a sua capacidade de ordenar as palavras, organizar o caos e dar um sentido articulado e humano à vida, expondo a visão de mundo dos homens e trazendo elementos que podem transitar entre a fantasia e a realidade. Com isso, é possível sonhar ao folhear cada página de um livro e deixar o imaginário ir além das fronteiras de uma vida comum, palpável. Em Cem Anos de Solidão, um clássico da Literatura Latino-Americana de Gabriel García Márquez, somos convidados a entrar neste realismo fantástico, um fenômeno narrativo literário que, no primoroso trabalho do escritor, encontra o caráter histórico mesclado ao lúdico, e indiscutivelmente, eleva o valor desta obra prima da Literatura traduzida em mais de 30 línguas e catalogada pela crítica internacional como um dos melhores romances escritos na atualidade.

Cem Anos de Solidão ocorre em Macondo, um lugar geográfico imaginário, caloroso, de costumes feudais de povos do litoral norte Colombiano. Macondo nos conduz pela trajetória da família Buendía, sua extensa genealogia e os seus feitos, na qual há mortes, tragédias, enfermidades, lutas e muita solidão. Como patriarcas desta família, estão o casal José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán que tiveram três filhos: José Arcádio, Aureliano e Amaranta. Úrsula é a personagem que convive ‘os anos de solidão’ atravessando as diferentes gerações de filhos, netos e bisnetos, e testemunhando a história dos Buendía-Iguarán. Cem anos de solidão não é somente a história desta família, mas é uma síntese muito bem desenvolvida da história nacional, da América Latina e até mesmo da história da humanidade já que, através dos dramas desta família, há os universais que têm lugares próprios e retratam a condição humana, além de que há uma junção de elementos históricos, cronológicos e míticos que com o realismo fantástico tornam a leitura diferenciada, nos aproximando de um mundo mágico que não subtrai a triste e angustiante realidade dos fatos, reflexos de uma América Latina de constante luta por seus direitos sociais.

O realismo fantástico é dado pela relação entre o real e o imaginário. Quando a linha divisória entre o real e o imaginário é convertida em uma linguagem, estamos diante deste fenômeno. O realismo fantástico que encontramos em Cem Anos de Solidão nos sinaliza um fato bem concreto: o mundo do real. A obra é uma fusão da realidade e da fantasia e evidencia estas fronteiras através dos fatos fantásticos acontecidos em Macondo e os registrados na história, como por exemplo uma peste de insônia e de esquecimento na qual as pessoas se esquecem de nomes rotineiros; um cigano que morre e volta à vida porque não pode suportar mais a solidão; os tapetes voadores que passam pelos tetos da cidade; um sacerdote que levita após tomar uma xícara de chocolate; o herói inspirado que promove trinta e duas guerras e perde todas; e a mulher que sobe aos céus com lençóis de cordel, divinamente de corpo e alma entregues a este lúdico alumbramento.

Em todas estas situações, os personagens e elementos são primorosamente bem conduzidos pela linguagem e maestria de Gabriel Gárcia Márquez porque, ainda que os acontecimentos sejam inverossímeis, ele elabora o texto de forma que todos parecem verdadeiros e totalmente indispensáveis para desenvolver as ações. Um dos momentos mais formosos do realismo fantástico é quando há a tragédia dos grevistas das Bananeiras na qual se mistura elementos reais e irreais que produzem uma imagem literária fantasmagórica na mente do leitor. Gabriel García Márquez, como um exímio expert de seu país e cultura traz à tona o episódio da zona Bananeira de 1928, mas para dar o tom do maravilhoso, ele inclui os poderes sobrenaturais que são atribuídos aos engenheiros da empresa e também o carregamento de mortos ao mar durante o meio da noite. Nesse contexto, Jose Arcádio Segundo desenvolve um diálogo sobre Macondo no qual relata a história da Colômbia e os movimentos subversivos que indicam a luta da classe trabalhadora, o poder americano em Macondo, a injustiça social e o crime coletivo, no qual várias pessoas foram assassinadas a mando da citada companhia.

Com o recurso narrativo do realismo fantástico de, que também foi utilizado por outros escritores da América Latina como Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez pôde unir à sua produção literária elementos da política e da sociedade com os da fantasia, desta forma, participando ativamente de uma Literatura que constrói uma dialética local e universal com forte conteúdo criativo, e que não abarca somente o significado particular de uma ficção, mas o coletivo que é relevante à humanidade, ano após ano, de forma contínua e atemporal, expressando a história do homem latino-americano, suas lutas, suas conquistas, sua solidão.

4 comentários:

  1. Cuando se abra el telón,

    La realidad se va a volver ficción.

    Cuando se cierre, La ficción

    habrá cambiado tu realidad.


    Ficción o realidad?

    Las dos cosas.

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  2. É sempre um prazer ver alguém escrevendo bem sobre Cem Anos de Solidão, uma das maiores obras-primas da literatura universal. Recomendo, do mesmo autor, Crônica de uma morte anunciada.

    Cultura na web:
    http://culturaexmachina.blogspot.com

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  3. Khan, obrigada pela visita. Clap clap... ficción o realidad, no importa, que sea las dos cosas y sea mi verdad.
    Saludos,

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  4. Olá pseudo-autor, obrigada pela visita.

    Gabo é fantástico. Um patrimônio da literatura atemporal e muito mais em cem anos de solidão.

    abraços

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