domingo, 17 de outubro de 2010

Os Despropósitos em Exercícios de Ser Criança de Manoel de Barros



Há dias que tenho saudades de ser criança. Responsabilidades que congelam a própria vida e sonhos que se esfriam provocam um sentimento de escapismo em mim, o de que a vida adulta é desanimadora demais por mais resiliência que eu tenha. Definitivamente eu preciso dessa fuga. Queria ter mais tempo para exercitar a criança em mim. Mas, de onde vem tanta saudade? Muito simples, ela vem naturalmente porque eu não perdi minha criancice levada da breca mesmo que ela esteja escondida por aí. É inspirador ver este mundo espontâneo do ser criança, principalmente quando sabemos que ao crescer perdemos uma boa parte desta naturalidade. O mais compensador é "rejuvenescer" nestes momentos de 'ser criança', pois o peso da idade é inevitável.
Aqui está uma mulher que quer realizar os exercícios de ser criança, voltar os pensamentos a um mundo lúdico e sonhar tirando os pés calejados do chão.





Nestes meus momentos, Manoel de Barros é essencial. Maravilhoso escritor, poeta tocante com as palavras mais simples, Manoel tem um livro maravilhoso, Exercícios de ser criança que deveria ser lido por todas as idades. A obra é fascinante com uma beleza plástica incrível, pois todas as imagens são bordadas. As ilustrações foram reaizadas pela família Diniz Dumont, que combinou claramente com sintonia as palavras e imagens, as ligando e as fundindo para obter novas representações. Muito mais que imagens, a mensagem do livro é muito forte, pois fala dos despropósitos da criança e como é importante olhar o mundo de forma desproposital.





Estes despropósitos são elementos que, aos olhos do homem e do mundo real, não têm qualquer relevância, validez e propósito pertinente, mas que assumem importante função no mundo imaginário infantil como matéria prima e produto do seu universo poético. Os despropósitos aparecem como objetos, por exemplo: uma peneira que carrega água ou uma casa sobre orvalhos, como também em forma de ações como: roubar um vento e sair correndo . A mensagem deste universo poético é simplesmente o lirismo que temos que colocar em nossas atitudes, em nossas ações dia após dia. Eis uma das minhas partes preferidas: “No aeroporto o menino perguntou”: - E se o avião tropicar num passarinho? O pai ficou torto e não respondeu. O menino perguntou de novo: - E se o avião tropicar num passarinho triste? A mãe teve ternuras e pensou: Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia? Será que os despropósitos não são mais carregados de poesia do que o bom senso? Ao sair do sufoco o pai refletiu: Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças. E ficou sendo”. Acho que como adultos não podemos deixar de encarar a vida de forma mais lúdica, como crianças cheias de despropósitos. Aprender a nos desapegar de qualquer limitação de pensamento, valorizando os despropósitos que muitas vezes nos trazem novos valores para toda uma vida. O despropósito rompe a limitação das “coisas normais e racionais ” e nos transporta a um universo mais sensível, criativo e inspirador. E olha que inspiração é algo que devemos ter para continuar seguindo com nossos objetivos. Com certeza, as pessoas vão nos amar pelos nossos despropósitos.

2 comentários:

  1. Manoel de barros é exercicio diario de desaprender & desconstruir. No canal futura anda passando uma reportagem com ele. Depois que Roberto Piva morreu pra mim é o ultimo poeta contemporaneo vivo que leio com frequencia.
    abraços
    fellini?
    http://blig.ig.com.br/serabenedito/


    http://blig.ig.com.br/serabenedito/

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  2. Olá Fellini,
    Obrigada pela sua visita.
    Manoel de Barros é incrível, espontaneamente poeta nestes exercícios diáriios de construção e desconstrução.

    E agora tem um livro de poesias dele maravilhoso! Preciso comprá-lo!

    Abraços,

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